Quer reaproximar o casal?
Gustavo Maranhão · Psicólogo CRP 02/23450 · Terapia de casal e sexologia clínica · Boa Viagem (Recife) e online
70% das pessoas em um relacionamento afirmam que o celular interfere nas interações com o parceiro. O dado vem de um estudo da Baylor University, nos Estados Unidos, com 453 adultos — e dá nome científico a uma cena que talvez aconteça na sua casa todas as noites: os dois no mesmo sofá, cada um em uma tela, e uma distância que ninguém combinou.
Esse comportamento tem nome: phubbing — a junção de phone (celular) e snubbing (esnobar, desdenhar). Em bom português: dar atenção ao celular na presença de alguém que esperava a sua atenção.
Mas quero começar este artigo desarmando uma armadilha: o celular não é o vilão da sua relação. Ele é, quase sempre, o sintoma — o lugar para onde a atenção escapa quando alguma coisa na conexão do casal já estava pedindo cuidado. Culpar o aparelho (ou quem o segura) é o caminho mais rápido para transformar uma dor legítima em briga estéril.
Sou Gustavo Maranhão, psicólogo (CRP 02/23450), especialista em terapia de casal, com atendimento presencial em Boa Viagem, no Recife, e online. A queixa do celular aparece no meu consultório com frequência crescente — quase nunca como tema principal, e quase sempre como porta de entrada para conversas muito maiores.
O que é phubbing — e por que ele é tão comum?
Phubbing é o ato de ignorar uma pessoa presente para dar atenção ao celular. No casal, ele tem até nome próprio na literatura científica: partner phubbing, ou phubbing entre parceiros.
No mesmo estudo da Baylor University, publicado na revista Computers in Human Behavior (Roberts & David, 2015), 46,3% dos participantes relataram já ter sido “trocados” pelo celular pelo próprio parceiro. Quase metade. Se você se sente assim, não está exagerando — e não está sozinho.
E há um detalhe importante nesses números: eles descrevem um comportamento de época, não um defeito de caráter. O celular foi desenhado para capturar atenção. Notificações, feeds infinitos e a promessa de novidade a cada toque disputam, com armas profissionais, o recurso mais precioso de uma relação: a presença.
Por isso, este artigo não vai lhe pedir para apontar o dedo para quem usa o celular. Vai lhe ajudar a entender o que acontece entre vocês quando a tela entra no meio — e como conversar sobre isso sem virar tribunal.
Por que dói tanto ser trocado por uma tela?
Porque ser ignorado dói de verdade — não é frescura, não é carência, não é drama.
A pesquisa sobre ostracismo mostra que ser ignorado por alguém importante ativa no cérebro circuitos muito próximos aos da dor física. O phubbing é uma versão em miniatura dessa experiência: uma microexclusão que se repete dezenas de vezes por dia, dentro da própria casa.
E há um agravante que torna essa dor difícil de nomear: cada episódio parece pequeno demais para justificar uma conversa séria. Reclamar de “cinco minutos de Instagram” soa mesquinho. Então a pessoa engole. E engole de novo. Até que a soma de microexclusões vira um sentimento grande — “eu não sou prioridade” — que explode em uma briga aparentemente desproporcional.
Na Gestalt-terapia, abordagem em que trabalho, o que está em jogo aqui é o contato: aquele encontro real, de presença inteira, que nutre o vínculo no aqui-e-agora. Quando um dos dois olha para a tela no meio de uma fala, o contato é interrompido — e quem falava fica com a frase suspensa no ar, sozinho no meio da própria tentativa de se aproximar.
Um jantar pode ter duas pessoas à mesa e nenhum contato. É essa a experiência que dói: não a presença do aparelho, mas a ausência do encontro.
Como o phubbing vira um ciclo que os dois alimentam?
Aqui está o achado mais interessante da pesquisa recente — e o que quase ninguém explica.
Um estudo-diário conduzido por pesquisadores da Universidade de Southampton, publicado em 2025 no Journal of Personality, acompanhou o dia a dia de casais registrando os episódios de phubbing e as reações a eles. A descoberta central: a resposta mais comum de quem se sente ignorado não é reclamar — é pegar o próprio celular.
Ou seja: o phubbing gera phubbing. Ferido, o parceiro ignorado retalia com a mesma moeda — às vezes por mágoa, às vezes só para preencher o vazio daquele momento. E o casal entra em um ciclo silencioso:
- Um mergulha na tela;
- O outro se sente excluído e ferido;
- Em vez de falar, mergulha na própria tela;
- Agora são dois ausentes — e ninguém sabe dizer quando começou.
O mesmo estudo trouxe outro achado importante: pessoas com apego mais ansioso sofrem mais intensamente com o phubbing — sentem a exclusão de forma mais aguda e reagem com mais mágoa. Não porque sejam “sensíveis demais”, mas porque o gesto toca exatamente no ponto onde a segurança do vínculo é mais frágil.
Se você reconheceu o ciclo, guarde isto: ele não tem vilão. Tem dois participantes machucados, cada um se protegendo do jeito que consegue. É o mesmo princípio de outro padrão que adoece casais — o do silêncio e da guerra fria, que tem artigo próprio em breve aqui no blog.
O celular é mesmo o problema — ou está no lugar de outra coisa?
Nem sempre o excesso de tela é sobre a tela. Na prática clínica, o celular costuma ocupar três funções diferentes dentro do casal — e distingui-las muda completamente a conversa:
1. Hábito de época. Todo mundo usa demais o celular; o casal apenas não combinou limites. Aqui, a solução costuma ser prática: acordos simples resolvem boa parte do incômodo.
2. Refúgio de cansaço. Depois de um dia exaustivo, a tela é o lugar onde não se exige nada de ninguém. O problema não é a relação — é a sobrecarga. A conversa aqui é sobre descanso e divisão de carga, não sobre amor.
3. Evitação de contato. Este é o mais delicado: o celular como esconderijo — de uma conversa difícil que ninguém quer começar, de um conflito antigo, de uma intimidade que esfriou. Aqui o aparelho é genuinamente sintoma: tirá-lo da mesa sem cuidar do que ele encobre só muda o formato da distância.
A ciência confirma que essa distância tem custo. Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Frontiers in Psychology (Ni e colaboradores), reunindo 52 estudos e 19.698 participantes, encontrou associação consistente entre phubbing e menor satisfação no relacionamento e menor intimidade. Associação, vale dizer, funciona nos dois sentidos: o celular afasta, e relações já distantes convidam ao celular. Por isso a pergunta certa nunca é “quem está errado?” — é “o que essa tela está ocupando entre nós?”.
Antes de seguir, um teste rápido de três perguntas para você se situar:
- O celular entra nos momentos de encontro (refeições, cama, conversas) ou só nos momentos vazios?
- Quando você pede atenção, o pedido é atendido — ou defendido?
- Se os celulares sumissem por uma noite, vocês teriam assunto — ou silêncio?
Se as respostas incomodaram, o próximo passo não é um ultimato. É uma conversa bem construída.
Como falar do celular sem virar tribunal?
Boa parte das conversas sobre celular fracassa porque nasce como acusação — e acusação convida à defesa, não à mudança. No consultório, oriento os casais a construírem essa conversa em quatro passos:
1. Escolha o momento — nunca o flagrante
A pior hora para falar do celular é quando o outro está no celular. O flagrante transforma a conversa em pega-ladrão: um acusa, o outro se defende, e o tema morre em placar de briga. Escolha um momento neutro e calmo — uma caminhada, um café — em que ninguém esteja com o aparelho na mão e ninguém esteja irritado.
2. Fale da sua dor, não do defeito do outro
“Você vive grudado nesse celular” é um ataque — e ataques geram muralhas. Experimente a frase em primeira pessoa: “Quando a gente janta e o celular fica na mesa, eu sinto que perco você. E eu sinto falta de você.” Falar do próprio sentimento não tem contra-argumento possível — ninguém pode dizer que a sua saudade está errada.
3. Faça um pedido concreto, não um pedido de mudança de caráter
“Queria que você me desse mais atenção” é vago demais para ser atendido. “Podemos jantar sem celular na mesa?” é concreto, pequeno e possível. Pedidos concretos têm outra vantagem: eles permitem ao outro acertar — e cada acerto reconstrói um pouco da confiança.
4. Fechem um acordo testável — e revisitem
Combinem algo específico, com começo modesto: jantar sem telas, ou a primeira meia hora depois que os dois chegam em casa. E marquem uma revisão: “testamos por duas semanas e conversamos de novo”. O acordo testável tira o peso de decisão definitiva e transforma o casal em time de experimento — em vez de juiz e réu.
O que evitar: confiscar ou vasculhar o celular do outro, usar o tema como munição em brigas antigas e transformar cada deslize no fim do acordo. Mudança de hábito tem recaída — o que sustenta o combinado é a retomada, não a perfeição.
Quando o celular no casal é caso de terapia?
Se o incômodo é recente e os acordos funcionam, vocês provavelmente não precisam de mim. Mas alguns sinais indicam que a tela está cobrindo algo que merece cuidado profissional:
- o ciclo pedido-defesa-retaliação se repete há meses, apesar das tentativas;
- toda conversa sobre atenção termina em briga ou em silêncio;
- o celular virou o assunto proibido — falar dele é acender pavio;
- a intimidade física e as conversas de verdade esfriaram junto;
- um dos dois (ou ambos) percebe que prefere a tela à companhia do outro — e sente culpa ou alívio por isso;
- há desconfiança sobre o que acontece dentro do aparelho, dita ou engolida.
Na terapia de casal, o celular deixa de ser réu e vira pista. Meu trabalho não é decidir quem está certo, nem arbitrar tempo de tela — é ajudar o casal a descobrir o que a atenção desviada está dizendo sobre o vínculo, e a reconstruir o contato que a rotina foi corroendo. Quem se refugia na tela aprende a nomear o que evita; quem se sente trocado aprende a pedir presença sem acusar.
O atendimento pode ser presencial, no meu consultório em Boa Viagem, no Recife, ou online, para casais de qualquer lugar do Brasil e brasileiros no exterior. E se apenas um de vocês estiver disposto a olhar para isso agora, a terapia individual também é um caminho legítimo — padrões de casal mudam quando um dos dois muda o próprio movimento.
Perguntas frequentes sobre phubbing e celular no relacionamento
O que é phubbing?
Phubbing é o ato de ignorar alguém presente para dar atenção ao celular — a palavra une phone (celular) e snubbing (esnobar). No casal, o termo descreve as situações em que um parceiro se sente preterido pela tela: no jantar, na cama, no meio de uma conversa. Segundo estudo da Baylor University, 46,3% das pessoas relatam já ter vivido isso com o próprio parceiro.
Phubbing é uma forma de traição?
Não no sentido clássico — mas pode funcionar como uma infidelidade de atenção. O que define o peso não é o aparelho, e sim dois critérios: o segredo (existe algo ali que precisa ser escondido?) e a energia desviada (a melhor parte da sua presença vai para a tela e sobra o resto para a relação?). Quando a resposta é sim, o tema merece uma conversa séria — e, às vezes, acompanhamento.
Meu parceiro só fica no celular. O que eu faço?
Primeiro, saia do flagrante: acusar no momento do uso só gera defesa. Escolha um momento calmo, fale da sua falta (não do defeito dele) e proponha um acordo pequeno e concreto, como refeições sem tela. E observe a função do celular: hábito, cansaço ou esconderijo de alguma conversa evitada? Cada uma pede um caminho diferente. Se o padrão resistir a meses de tentativa, terapia de casal é o espaço para destravar.
Como falar do celular sem brigar?
Quatro cuidados mudam o jogo: momento neutro (nunca durante o uso), frase em primeira pessoa (“eu sinto falta de você” em vez de “você não larga isso”), pedido concreto (jantar sem celular, e não “me dê mais atenção”) e acordo com prazo de teste e revisão marcada. A conversa fracassa quando vira julgamento; funciona quando vira convite.
Quando o casal deve procurar terapia por causa do celular?
Quando o celular deixou de ser um incômodo pontual e virou um padrão que os dois reconhecem e não conseguem mudar sozinhos: acordos que nunca se sustentam, brigas repetidas sobre atenção, distância que cresce, desconfiança engolida. Nesses casos, a tela costuma ser a parte visível de um distanciamento maior — e é isso, não o aparelho, que a terapia de casal ajuda a cuidar.
Conclusão: o celular mostra onde a presença faltou
O phubbing machuca porque toca no que há de mais essencial em uma relação: a experiência de ser visto por quem amamos. Mas o celular, sozinho, não desfaz casal nenhum — ele apenas ocupa, com eficiência profissional, os espaços onde o encontro já vinha rareando.
A boa notícia é que presença se reconstrói. Com conversa bem construída, acordos pequenos e, quando preciso, um espaço protegido para destravar o que a tela encobria.
Se essa leitura descreveu a sua casa, não espere o assunto virar guerra. Agende uma conversa comigo — presencial em Boa Viagem, no Recife, ou online de onde vocês estiverem.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico individualizado. Cada relação possui particularidades que exigem avaliação específica. As referências científicas citadas refletem o estado das pesquisas em 2026.
Gustavo Maranhão — Psicólogo, CRP 02/23450. Pós-graduado em Terapia de Casal e Sexologia Clínica.
Quer reaproximar o casal?
Gustavo Maranhão · Psicólogo CRP 02/23450 · Terapia de casal e sexologia clínica · Boa Viagem (Recife) e online

